Soja: evidência, mitos e controvérsias

A soja é um dos alimentos com mais mitos à sua volta, sendo o seu consumo, principalmente os malefícios que lhe são apontados, um dos temas mais controversos do mundo da alimentação. A soja é uma leguminosa, assim como o feijão e o grão-de-bico, e possui algumas particularidades que explicam os seus benefícios e a maioria dos mitos associados à sua ingestão. Este alimento é originário da China e do Japão, mas desde há muitas décadas que é utilizando também no mundo ocidental.

Para algumas pessoas, o consumo de soja está quase automaticamente ligado à dieta vegetariana. Isto deve-se ao facto das alternativas vegetarianas ao leite, à carne e seus sucedâneos (salsichas, hambúrgueres, etc.) serem muitas vezes feitos à base de soja. No entanto, o consumo de produtos à base de soja não é essencial neste padrão alimentar e, na verdade, talvez não sejam propriamente os vegetarianos os maiores consumidores de soja, como mais à frente neste artigo vamos poder perceber.

Irei começar por expor as dúvidas e os mitos mais comuns e qual a evidência científica que existe sobre cada um deles. Estas dúvidas foram-me enviadas por vocês (pelo instagram e também pelo email) e espero que de alguma forma vos esclareçam.

→ A soja mimetiza ou interfere com as nossas hormonas? Qual a relação entre a soja e o nosso estrogénio?

Então, a soja e os alimentos à base de soja (como tofu, tempeh, edamame, miso e outros) contêm isoflavonas. As isoflavonas (ou isoflavonóides) são consideradas fitoestrogénios (isto é, estrogénios das plantas) e têm uma ação semelhantes à dos nossos estrogénios endógenos (Marji McCullough, ScD, RD, 2012). Vem daqui a associação que se faz entre o consumo de soja e as nossas hormonas.

No entanto, as isoflavonas da soja têm um baixo efeito estrogénico e, para além disso, elas acabam por ter um efeito antiestrogénico, pois são capazes de se ligar aos recetores de estrogénios endógenos, minimizando a sua ação.

Ou seja, as isoflavonas da soja podem impedir que os estrogénios endógenos naturais (mais potentes) se liguem aos seus recetores nas células. Mais, as isoflavonas conseguem bloquear a formação de estrogénios no nosso tecido adiposo e estimular a produção de uma proteína que se liga aos estrogénios no sangue (tornando-os menos capazes de se ligar aos recetores). Para além disso, as isoflavonas têm também propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

É essencialmente devido a estas propriedades antiestrogénicas, anti-inflamatórias e antioxidantes das isoflavonas que se verificam os benefícios do consumo de soja em relação à redução do risco de cancro da mama e de outros cancros sensíveis às hormonas (como o do endométrio), como de seguida irei explicar neste artigo.

→ O consumo de soja aumenta o risco de cancro? Qual a relação entre a soja e o cancro de mama?

Embora muitas pessoas pensem o contrário, tem sido demonstrado em alguns trabalhos que a soja tem um efeito protetor contra o cancro, particularmente porque as isoflavonas da soja apresentam efeito anticancerígeno (Willett, W et al, 2019). Estudos epidemiológicos demonstram que nas populações que consomem dietas ricas em soja e seus produtos, a incidência de determinados tipos de cancro (cólon, mama e próstata, principalmente) é menor quando comparada com a incidência em populações que não consomem estes alimentos (E.A. Esteves & J.B.R. Monteiro, 2001).

Em relação ao cancro da mama, a grande maioria da evidência existente sobre o tema aponta para que o consumo de soja tenha um efeito nulo ou protetor contra este cancro, bastando a ingestão de duas porções por dia para se verificar um benefício (E.A. Esteves & J.B.R. Monteiro, 2001). Sabe-se que as mulheres que consomem quantidades moderadas de soja ao longo da vida têm menor risco do que as mulheres que não a consomem (Marji McCullough, ScD, RD, 2012). Várias investigações sugerem que a ingestão de soja durante a adolescência (de 2 a 9 doses por semana) reduz o risco de cancro da mama na idade adulta, sendo que o risco mantém esta tendência caso se continue a ingerir soja durante a idade adulta (Korde et al., 2009).

No Shanghai Women’s Health Study, um estudo que acompanhou mais de 70,000 mulheres na China, foi observado que o consumo de alimentos à base de soja nas mulheres estava inversamente associado com o risco de cancro da mama (59% menor risco nas mulheres que consumiam mais soja comparativamente com as que menos consumiam), principalmente nas mulheres que ainda não estavam na menopausa. Mulheres que consumiram soja de forma consistente durante a adolescência e idade adulta apresentaram uma substancial redução do risco de cancro da mama (Lee et al 2009).

Um outro estudo realizado com mulheres japonesas, que consumiram grandes quantidades de alimentos à base de soja (cerca de 160g/dia), demonstrou que a ingestão diária de soja e de isoflavonas teve uma associação inversa e significativa com o risco de cancro da mama pós-menopausa (Wada K et al., 2013).

A genisteína, uma das isoflavonas da soja, mostrou ser eficientemente absorvida no intestino e, apesar dos níveis sanguíneos deste composto serem insuficientes para inibir o crescimento de um cancro da mama estabelecido, são suficientes para regular a proliferação de células epiteliais em cancro e sendo assim, podem exercer efeito quimiopreventivo (E.A. Esteves & J.B.R. Monteiro, 2001).

Para além dos benefícios associados ao cancro da mama, os resultados de um estudo realizado em 2015 relataram que a ingestão de isoflavonas por mulheres em período pós-menopausa exerce também um papel protetor contra o cancro do endométrio (Zhang, G et al. 2015).

O consumo de alimentos à base de soja está ainda associado à redução do risco de desenvolvimento do cancro da próstata nos homens. Uma meta-análise de 2009, que incluiu 14 estudos científicos, mostrou que o consumo de alimentos à base de soja está associado a um risco 26% menor de cancro da próstata. (Yan and Spitznagel, 2009).

Para além do cancro da mama, do endométrio e da próstata, foi também demonstrado o efeito protetor do consumo de soja (3 a 4 vezes por semana) no surgimento do cancro do cólon e do cancro gástrico , que é potenciado com o consumo simultâneo de frutas e vegetais (Kwang-Pil K et al., 2013).

Concluindo, não foram encontrados estudos em humanos que mostrem um risco aumentado de cancro com o consumo de soja, mas existem muitas evidências que reforçam o seu papel protetor no desenvolvimento de cancros, quer em mulheres quer em homens (Justine Butler & Veronika Powell, 2018).

→ Pessoas que têm cancro da mama podem consumir soja?

Sim, podem. Em mulheres sobreviventes do cancro da mama, um estudo prospetivo conduzido na China observou que a ingestão de alimentos à base de soja é segura e associa-se a uma menor taxa de mortalidade e de recidiva (isto é, uma menor probabilidade do cancro voltar). Esta associação parece ser eficaz através do consumo diário de cerca 11g de proteína proveniente de soja, sendo que quantidades superiores não apresentam aparentemente nenhum benefício adicional. Este estudo sugere que a ingestão moderada de alimentos à base de soja é segura e potencialmente benéfica para mulheres com cancro de mama (Ou Shu, X. et al, 2009).

Um estudo recente, englobando mais de 9000 sobreviventes de cancro de mama dos Estados Unidos da América e da China, mostrou que o consumo de soja reduz o risco de recidiva. Este estudo também mostrou que o consumo de soja não interfere com a eficácia do tamoxifeno (um medicamento que bloqueia os recetores de estrogénios na mama, muito usado nos tratamentos do cancro de mama) (Nechuta 2012).

Nesse mesmo ano, a American Cancer Society lançou as linhas de orientação para sobreviventes de cancro nas quais é reforçado que a evidência existente não encontra efeitos adversos no consumo de soja em sobreviventes de cancro da mama em termos de recorrência ou de mortalidade, quer por si só, quer em conjunto com o tamoxifeno. Aliás, existe até um potencial efeito sinérgico entre os dois, o que significa que os alimentos à base de soja podem potenciar a eficácia do medicamento. O uso de suplementos de isoflavonas de soja não está recomendado por ainda não serem conhecidos os seus efeitos. (Rock 2012)

→ A soja pode ser consumida por pessoas com problemas na tiróide?

Sim, pode. As preocupações que se levantam em relação à ação da soja na função tiroideia concentram-se em dois componentes – os compostos goitrogénicos e as isoflavonas.

Goitrogénicos são compostos encontrados naturalmente na soja, vegetais crucíferos, milho, amendoim e pinhão, e a sua ingestão pode interferir com a absorção do iodo pelo organismo. No entanto, se a dieta fornecer iodo em quantidades suficientes, este problema já não se levanta. Para além disso, os compostos goitrogénicos são destruídos na sua grande maioria aquando da cozedura dos alimentos e os produtos à base de soja não são consumidos crus (mesmo a bebida de soja durante o processamento é sujeita a calor). Também a fermentação dos alimentos à base de soja (como o tempeh ou miso) reduz o seu conteúdo em compostos goitrogénicos (Dr Justine Butler & Veronika Powell MSc, 2018).

No entanto, em pessoas com hipotiroidismo medicadas com levotiroxina (a hormona tiroideia sintética) existe alguma, embora modesta, evidência de que a soja (nomeadamente as suas isoflavonas) possam prejudicar a absorção do medicamento. Dado que este medicamento é tomado ao acordar, habitualmente 30 minutos antes do pequeno-almoço, e que a hormona é totalmente absorvida em 1 hora, pensa-se que se o consumo de soja acontecer depois desse período a interferência seja mínima, embora ainda não exista um consenso se é realmente necessário esperar este período de tempo. Existem também outros fatores na dieta, com a fibra, que podem ligar-se à hormona e prejudicar a sua absorção (Messina, M e Redmond, G, 2006). Assim, será importante ir avaliando a eficácia da medicação, principalmente se houver um aumento ou diminuição substancial do consumo de soja (Sathyapalan et al. 2011). É pouco provável que as variações normais do dia-a-dia causem problemas clinicamente relevantes (Messina, M e Redmond, G, 2006).

Em indivíduos saudáveis, que não tenham comprometimento da função tiroideia, a ingestão de soja e seus derivados pode ser feita de forma segura, desde que se garanta a ingestão adequada de iodo durante o dia (Messina, M e Redmond, G, 2006). Podemos obter iodo na dieta usando, por exemplo, o sal iodado (tal como expliquei no meu ebook).

→ O consumo de soja na menopausa é benéfico?

Sim, é. Em termos dos efeitos do consumo de soja na menopausa, iremos abordar dois pontos importantes: a saúde óssea e os sintomas da menopausa.

Recentes estudos epidemiológicos têm sugerido que a incidência de osteoporose na pós-menopausa é menor na Ásia que no ocidente. Uma das possíveis explicações para esta diferença baseia-se na elevada ingestão de produtos de soja, ricos em isoflavonas, pelas mulheres asiáticas (E.A. Esteves & J.B.R. Monteiro, 2001).

Um estudo investigou o efeito da ingestão de proteína de soja na saúde óssea de mulheres na pós-menopausa, comparando-o com o efeito da caseína (proteína do leite) e com um grupo de controlo. Os resultados indicaram aumentos significativos no conteúdo mineral e de densidade óssea nos grupos que ingeriram a proteína de soja quando comparados com o controlo. Apesar de ter sido um estudo a curto prazo, estes resultados sugerem o papel potencial das isoflavonas de soja na manutenção da saúde óssea (E.A. Esteves & J.B.R. Monteiro, 2001).

Uma revisão bibliográfica recente concluiu que as isoflavonas podem aumentar a densidade mineral óssea e diminuir a perda óssea. Os efeitos benéficos das isoflavonas de soja no osso podem resultar tanto do aumento da formação óssea pelos osteoblastos como da diminuição da destruição óssea pelos osteoclastos, resultando num balanço positivo de formação óssea que pode, em teoria, prevenir fraturas de osteoporose (Castelo-Branco e Soveral, 2013).

Assim, existe um potencial benefício do consumo de soja na saúde óssea, que ainda necessita de mais estudos para ser bem conhecido.

Em relação aos sintomas da menopausa, um dos mais manifestados são os afrontamentos (“calores”), que por vezes se manifestam de forma bastante intensa. Um estudo demonstrou que a ingestão de soja (num total de 50mg de isoflavonas por dia) exerce um efeito minimizador deste sintoma, reduzindo quer a frequência quer a intensidade (Taku et al., 2012).

→ A soja interfere com a pílula?

Existem muito poucos estudos a analisar esta questão, logo não é possível tirar-se grandes conclusões acerca do potencial efeito da ingestão de soja no papel nos anticoncetivos orais. Existe um estudo, realizado em 1999, onde se notou que o consumo de soja não afetou as concentrações séricas das hormonas sexuais, independentemente do uso de contracetivos orais (C. Martini, M et al, 1999).

Portanto à partida não haverá interferência, mas são necessários mais estudos.

 → A soja pode ser prejudicial para quem tem a síndrome do ovário poliquístico?

A síndrome do ovário poliquístico é uma das doenças endócrinas mais comuns e estima-se que pode afetar até 20% da população feminina em idade reprodutiva. Esta síndrome está associada a ciclos menstruais irregulares, anovulação, excesso de pelos corporais, queda de cabelo, acne, excesso de peso, hipertensão arterial e alteração do metabolismo da glicose. A resistência à insulina também pode ser encontrada nestas mulheres, podendo predispor ao desenvolvimento precoce de doenças cardiovasculares, diabetes e hiperlipidemia (Botros R, Rizk MB. 2001).

Um estudo realizado em 2016, pretendeu entender qual o efeito da ingestão diária de isoflavonas de soja numa população de mulheres, entre os 18 e os 40 anos, com diagnóstico de síndrome do ovário poliquístico. Neste estudo, foram administradas 50 mg de isoflavonas de soja, através de um suplemento (este valor pode ser alcançado através do consumo diário de 500ml de bebida de soja também). Foi demonstrado que a administração de isoflavonas de soja durante 12 semanas teve efeitos benéficos nos marcadores da resistência à insulina, testosterona sérica total, globulina transportadora de hormonas sexuais, índice de andrógenos livres, triglicerídeos, colesterol LDL, entre outros. Por outro lado, não teve qualquer efeito sobre a glicose plasmática em jejum, nem sobre outros biomarcadores (lipídicos, de inflamação e de stress oxidativo) (Jamilian, M. e Asemi, Z., 2016).

Um outro estudo realizado durante 3 meses, estudou um grupo de mulheres com esta síndrome, às quais eram administradas 18mg de Genisteína (uma isoflavona presente nos alimentos à base de soja) duas vezes ao dia por via oral, o que resultou numa redução significativa do colesterol LDL, quando comparado com o grupo placebo. Para além disso, foi possível ainda verificar-se uma diminuição significativa dos níveis de testosterona, LH (hormona luteinizante) e DHEAS (sulfato de dehidroepiandrosterona), enquanto que para os níveis de FSH (hormona folículo-estimulante) não se observou qualquer alteração (Khani, B et al, 2011).

Deste modo, é notável que o consumo de alimentos à base de soja pode prevenir distúrbios cardiovasculares e metabólicos em pessoas com síndrome do ovário poliquístico, melhorando o seu perfil hormonal e lipídico.

→ Que quantidade de produtos à base de soja se pode consumir por dia?

A quantidade que é razoável um adulto consumir, tendo em conta os benefícios associados, é de aproximadamente duas porções de alimentos à base de soja por dia (considerando que estes irão fornecer cerca de 15g de proteína e cerca de 50mg de isoflavonas) (USSEC, 2015).

Uma porção de soja equivale a 1 chávena de bebida de soja ou ½ chávena de tofu, tempeh, feijão de soja ou soja texturizada.

Regra geral, é recomendado um consumo moderado e variado, não só da soja como de todos os alimentos que a contenham. A leitura atenta dos rótulos destes alimentos é fundamental, já que muitos produtos à base de soja contêm quantidades significativas de açúcar (como algumas bebidas e iogurtes de soja, particularmente os com sabores) e, por outro lado, alguns poderão ser fortificados com cálcio, tornando-se mais interessantes.

De todos estes produtos mencionados, a soja texturizada é o único que não é tão interessante para um consumo frequente por ser excessivamente processada e ter menos isoflavonas (embora forneça uma boa quantidade de proteína) (Jack Norris, RD, 2011).

→ Qual é a melhor opção, tofu ou tempeh?

Muitas vezes é referido que os benefícios do consumo de soja só advêm dos seus produtos fermentados. No entanto, a maioria da evidência sobre este tema não sugere que os alimentos fermentados de soja sejam mais saudáveis ​​do que os alimentos de soja não fermentados (como o tofu e a bebida de soja) (Jack Norris, 2011).

No entanto, algumas pessoas podem digerir melhor os alimentos de soja fermentados (tempeh, miso, natto) do que os não fermentados, já que estes possuem bactérias benéficas que podem melhorar a saúde digestiva (Justine Butler & Veronika Powell, 2018).

Nutricionalmente, o tofu e o tempeh têm perfis muito semelhantes, podendo ser um complemento benéfico para uma alimentação saudável e variada. No entanto, o tempeh apresenta um sabor mais forte (amargo), enquanto que o tofu é mais insípido, mas ambos podem ser aplicado num vasto número de preparações culinárias (Kassel, G., 2018).

→ Os meninos e os homens podem consumir soja? Esta não terá um “efeito feminizante”?

Em relação a esta preocupação de que o consumo de soja provoque o desenvolvimento de características femininas em homens, existem dois estudos de caso. Num deles, um homem adulto consumiu 12 porções de bebida de soja por dia e teve um aumento do tecido mamário. No outro estudo, um homem com diabetes tipo 1 ingeriu 14 porções de alimentos processados à base de soja por dia durante um ano e desenvolveu disfunção eréctil, que reverteu assim que o consumo de soja terminou. Assim, é possível que consumos exageradíssimos de soja, que vão muito além do consumo habitual mesmo em países orientais, possam ter estes efeitos adversos.

Ainda assim, vários estudos mostraram que não há qualquer efeito do consumo de soja nas doses habituais na qualidade do sémen ou na quantidade de espermatozoides, principalmente em homens adultos saudáveis (Beaton et al., 2010).

→ O nosso organismo reage bem ao consumo de soja, visto que é um produto oriundo da Ásia?

A soja, o leite, o amendoim, o trigo e os ovos estão na origem de cerca de 90% das alergias em crianças com atopia, sendo as últimas as mais frequentes e severas. Embora não existam muitos estudos acerca da alergia à soja, a prevalência desta alergia parece ser baixa, com raras reações de anafilaxia a alimentos que contêm soja. A fermentação da soja e dos alimentos dela derivados reduz a alergenicidade, existindo uma resposta imune muito baixa ao iogurte de soja, seguido do miso e tempeh mas não ao molho de soja (Song Y.-S. et al. 2007). Pessoas que tenha alergia ou intolerância à soja não devem consumir estes produtos.

Em relação a questões de saúde, podemos ver que, de um modo geral, as evidências sugerem que consumir quantidades moderadas de alimentos à base de soja é seguro e desempenha um papel bastante benéfico na prevenção quer do cancro de mama quer de outras doenças crónicas (Dr Justine Butler & Veronika Powell MSc, 2018). Para além dos benefícios já enumerados, tem sido relatado que o consumo de soja está também associado a uma redução dos níveis de colesterol sanguíneo, da formação de placa aterosclerótica e do risco de doença coronária (Mannu et al., 2013), níveis mais baixos de pressão arterial e menor risco de hipertensão e de diabetes tipo 2 (American Dietetic Association, 2009).

→ A soja não é prejudicial à saúde pelo facto de ser transgénica? E o impacto ambiental da produção de soja? É o consumo atual de soja sustentável para o nosso planeta?

Ora, o que se pode dizer sobre estas questões:

  • A soja geneticamente modificada é o alimento transgénico que mais se produz em todo o mundo, sendo que na sua maioria é utilizada para alimentar gado (criado para consumo humano).
  • De toda a soja produzida, apenas 6 porcento é consumida diretamente, maioritariamente em países asiáticos, sob a forma de feijão de soja ou em produtos como o tofu e o molho de soja.(Por cada quilo de carne de vaca, de porco, de frango e ovos são gastos 173g, 263g, 575g e 307g de soja, respetivamente)
  • Na União Europeia não é permitido o cultivo de soja transgénica, logo, toda a soja produzida é não transgénica. No entanto, como a demanda de soja para a criação de gado é gigante, a UE importa milhões de toneladas de soja vinda outros países (como Brasil, Argentina, Estados Unidos da América e Paraguai). Esta soja vem de países onde a soja é maioritariamente geneticamente modificada (cerca de 90%).
  • A grande maioria da soja presente em alimentos destinados às pessoas, na União Europeia, não é geneticamente modificada. Na UE, os produtos que sejam ou contenham Organismos Geneticamente modificados têm obrigatoriamente de ter essa indicação no rótulo, exceto quando a sua presença corresponde a menos de 0,9% do alimento, a sua presença seja acidental ou tecnicamente inevitável. Segundo o Regulamento Europeu n.° 1830/2003, é obrigatório no rótulo constar: “Este produto contém organismos geneticamente modificados” ou “Este produto contém [nome do(s) organismo(s)] geneticamente modificados”.
  • Em Portugal, é raro encontrarmos esta menção, mas existem alguns óleos para fritar e outros produtos que a contêm (ver aqui exemplos).
  • No entanto, produtos de origem animal, como a carne, pescado de aquacultura, lácteos e ovos, não têm de ter a indicação se os animais foram ou não alimentados com rações transgénicas.

Sobre a segurança da soja geneticamente modificada

A segurança dos OGM tem sido alvo de debate ao longo dos anos, em vários países do mundo. Não pesquisei a fundo sobre este tema, mas recolhi alguma informação que penso que valha a pena partilhar:

  • Todos os OGM autorizados pela UE foram considerados seguros antes de serem colocados no mercado. A EFSA (European Food Safety Authority) está encarregue pela avaliação do risco para a saúde humana, para os animais e para o ambiente, e cabe à Comissão Europeia a aprovação final.
  • Em 2010 a Comissão Europeia publicou um relatório bastante extensivo sobre este tema (ver aqui). De acordo com a CE, “a principal conclusão a ser tirada dos esforços de mais de 130 projetos de pesquisa, cobrindo um período de mais de 25 anos de investigação e envolvendo mais de 500 grupos independentes, é que a biotecnologia, e em particular os transgénicos, não são per se mais arriscados do que, por exemplo, as tecnologias convencionais de criação de plantas”.
  • Ainda assim, muitas pessoas acreditam que os OMG poderão ser prejudiciais a longo prazo não só para a saúde humana, como para o ambiente, nomeadamente pela extensiva utilização de agrotóxicos. Em termos ambientais, é importante notar que há uma significativa perda de biodiversidade pela gigante utilização dos solos por estas culturas. A área total ocupada pela produção de soja em 2014 era de 1 milhão de quilómetros quadrados – a área combinada da França, Alemanha, Bélgica e Países Baixos. A produção de soja na América do Sul, utilizando áreas florestais para cultivo desta leguminosa, tem causado a desflorestação de áreas tão importantes para o planeta como a Amazónia, o Cerrado, o Gran Chaco e o Chiquitano.

Se será ou não prejudicial ao planeta ou à nossa saúde a utilização de OMG é algo que ainda é debatido. Mas, dado que a grande maioria dos alimentos transgénicos (como a soja e o milho) são produzidos para alimentar gado, uma redução do consumo de carne, como já tantas vezes foi recomendada para benefício ambiental, iria reduzir a necessidade de os cultivarmos. Neste momento, com o consumo atual de carne e com expectativa de sermos 10 mil milhões de pessoas em 2050, a utilização destas tecnologias é inevitável. Para quem preferir não utilizar produtos OMG pode sempre evitar o consumo de alimentos de origem animal e os excessivamente processados, privilegiar os produtos biológicos e procurar nos rótulos a existência da indicação de presença de OGM.

Concluindo:

O consumo de soja está envolvido em várias controvérsias que espero, com este artigo, ter conseguido esclarecer. Gostaria de salientar que não é necessário consumir produtos à base numa dieta vegetariana (para quem é alérgico, intolerante ou simplesmente não aprecia o sabor). Contudo, estão bem documentados os benefícios associados ao consumo desta leguminosa. Alimentos como o tofu, tempeh, bebidas e iogurtes de soja não são produtos excessivamente processados, são saudáveis e podem ser incluídos numa dieta vegetariana variada e equilibrada. Em termos das preocupações ambientais, a redução do consumo de carne terá um impacto significativamente maior do que reduzir o consumo destes produtos.

Qualquer dúvida que tenha ficado por esclarecer disponham.

Se gostarem deste artigo, por favor partilhem 😊

Sandra

 

Adenda:

Já depois de publicado o artigo, enviaram-me a seguinte questão:

→ Será o consumo de soja benéfico ou prejudicial para mulheres que estejam em tratamentos de fertilidade?

Não tinha pesquisado sobre este tema em específico, mas considerei a pergunta bastante pertinente. Da pesquisa que fiz, encontrei um trabalho de 2015 com 315 mulheres em processos de reprodução medicamente assistida. O grupo de mulheres que consumiu soja durante os tratamentos apresentou um maior número de gravidezes (11% maior) e de nascimentos (13% maior), comparativamente com o grupo de mulheres que não consumiu soja. Um consumo mais alto de soja e de isoflavonas esteve associado a um número ligeiramente maior de nascimentos do que um consumo menor (embora este último resultado não seja estatisticamente significativo). Os autores concluem que o consumo de soja esteve positivamente associado à probabilidade de se ter um filho durante os tratamentos de infertilidade (Vanegas JC, 2015).

Um outro trabalho, de 2004, vem reportar um efeito positivo na toma de fitoestrogénios durante a fase lútea em mulheres em processos de fertilização in vitro, em termos da implantação do óvulo, gravidez clínica e nascimentos (Unfer V, 2004).

Por fim, um outro estudo, de 2008, com uma pequena amostra, confirma que a toma de fitoestrogénios em mulheres inférteis durante os tratamentos de fertilidade trouxe resultados positivos em termos fisiológicos e de outcome (múmero de gravidezes) (Shahin AY, 2008)

Imagens retiradas daqui.

8 thoughts on “Soja: evidência, mitos e controvérsias

  1. Sandra, parabéns pelo nível extremamente alto das informações reunidas no artigo (típico da Sandra). O excelente texto traduz-se em uma compilação de ideias tão clara quanto relevante para os seus leitores!

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